Necessidade de Controle: contornos frente ao acaso
Atualizado: 9 de out.
É comum, nos dias de hoje, nos depararmos com o desejo por controle em diversos contextos: pensar em vários cenários para prever como lidar com consequências negativas, organizar o ambiente para evitar imprevistos, programar atividades para ter a sensação de estar no comando, e por aí vai. Nesses casos, a ansiedade de antecipar os acontecimentos parece se sobrepor ao simples ato de se planejar para algo, dando espaço a um peso que passa a consumir o sujeito diante de atividades: a necessidade de ter e manter o controle.
O foco passa a ser mais sobre tentar moldar as circunstâncias das experiências do que vivenciá-las e processá-las de fato — uma forma muito bem calculada, diga-se de passagem, de evitá-las, junto com as possibilidades de decepção, frustração, desconforto e vulnerabilidade. Paradoxalmente, essa tentativa de evitação acaba se transformando, inconscientemente, em uma busca pelo desagradável, pois esperar o pior se torna rotina, quase como uma “invocação ao mal”, para, no final, estar certo sobre ele, quando acontecer.
Freud já apontava que boa parte do sofrimento psíquico nasce de tentativas — nem sempre eficazes, mas sempre com uma lógica interna — de lidar com a angústia e a dor. O controle é uma dessas tentativas. Ele não elimina a angústia, mas, sim, “administra-a” — quase como um autoadestramento.

A busca pela perfeição também é bastante recorrente diante desses cenários, pois a perfeição traz a sedutora ilusão de ser invulnerável e impenetrável à insatisfação e à falha. Deseja-se blindar dos próprios erros e da vulnerabilidade nas relações, sem demonstrar dor, descontentamento ou frustração — como se a perfeição fosse a oferta de um escudo, uma armadura, ou mesmo uma esperança de ter poder sobre o próprio futuro. Assim, cada tentativa de atingir a perfeição ou manter o controle passa a ser uma pequena negociação com aquilo que ameaça escapar: a realidade, enlaçada ao imprevisível, que insiste em se manifestar.
Diante do acaso, há algo na experiência de existir que nenhum planejamento consegue eliminar: o corpo adoece sem aviso, o outro tem desejo próprio, o tempo passa e as coisas mudam independentemente do quanto se queira calculá-las. O contorno incontrolável da vida retorna, por mais que se queira ignorá-lo, renovando a angústia, a impotência e a busca incessante por evitar essas sensações.
É importante, sim, conseguir organizar prioridades e planejar uma rotina. Mas é preciso enxergar em que ponto isso deixa de ser uma programação comum e saudável para se tornar um “cabo de guerra” contra o imprevisível da vida e os próprios desejos.
O que a busca por controle revela sobre o que você, na verdade, quer evitar? Que outros contornos podem ser desenhados frente ao acaso?




