Há momento certo para falar sobre um trauma?
- Victória Gomes
- 22 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 27 de abr.
“Por que só agora?”
Quando vítimas de acontecimentos traumáticos – como abuso físico e/ou psicológico – decidem falar sobre o ocorrido, infelizmente esse é um questionamento comum que recebem. Podem ter passado seis meses, dois anos ou dez anos, mas sempre haverá alguém com descrença em relação à veracidade da história ou alguém para apontar uma razão pela qual a pessoa estaria falando “só agora”, como se fosse uma mentira para prejudicar o outro ou para obter algo. Como se o tempo que a pessoa leva para conseguir falar fosse um motivo para descredibilizar e desmentir sua história.

A verdade é que a grande maioria dos casos nunca é mentira. A intensidade de um trauma extrapola os limites da realidade para conseguir ser inventada ou calculada. Acontecimentos traumáticos sempre deixam marcas dolorosas e difíceis de serem faladas, pois falar é reviver. E essas dores, se não elaboradas, não cessam. Para esses acontecimentos, o tempo não passa; voltam e atormentam, como se fosse o dia do ocorrido. O ontem se torna o agora: “só agora” é todo dia.
Conseguir falar sobre algo sensível necessita de tempo para pensar, esquecer, relembrar, elaborar, relatar, denunciar… Não é fácil, ainda mais quando não se tem em quem confiar. Relatar uma história, reviver a dor e ter ela invalidada, com qualquer questionamento que seja, pode intensificar ainda mais o sofrimento e o silêncio, trazendo sensação de culpa para quem, na verdade, foi vítima. Esse é um processo que requer apoio e cuidado para reparar aquilo que foi violado.
Por isso, não há momento certo para falar sobre um trauma: o momento certo é quando você estiver preparada/o para isso, mesmo que leve anos. Dividir com pessoas de confiança é fundamental para se fortalecer e conversar sobre o ocorrido, sem que haja julgamentos. Entender que a culpa não é sua, e nunca será, é o primeiro passo para isso. Você não está sozinha/o.









