Quanto custa a sua autonomia?
- Victória Gomes
- 22 de abr.
- 3 min de leitura
Interlocuções sobre autonomia e a série Pluribus
Como podemos entender a importância da autonomia a partir da narrativa de Pluribus?
Pluribus é uma série estadunidense, criada por Vince Gilligan, que teve sua primeira temporada lançada em 2025. A história se passa em um cenário pós-apocalíptico, que compõe uma distopia disfarçada de utopia: a população é contaminada por algo ainda não identificado, que une as pessoas em uma única mente coletiva, responsável por comandar todos em busca da felicidade e da ordem absoluta.

No meio dessa conjuntura está a protagonista Carol Sturka, uma das poucas pessoas não afetadas pela contaminação global. Sozinha, Carol tenta sobreviver e entender o que está acontecendo, com grande desconfiança perante a generosidade demonstrada pelos contaminados, a quem se refere como os Outros.
Em suas investigações, Carol observa que os Outros perderam sua identidade, individualidade e autonomia, e passaram a integrar uma relação de colônia, em que tudo parece estar bem, organizado e pacífico. Não há conflitos, frustrações nem sentimentos negativos. O mundo parou de ter crimes, mortes e violência. Todos convivem em harmonia e buscam “salvar” Carol e as outras poucas pessoas que, por algum motivo, estão imunes a essa união.
Apesar de o planeta aparentar ter sido inundado pela paz, sem mais guerras, desigualdade social e preconceitos, Carol não compra a narrativa dos Outros. A “utopia” que se desenha diante de seus olhos não a convence a participar do novo normal instaurado repentinamente, e ela inicia uma busca para tentar reverter tal situação.
Para os outros, Carol parece uma rebelde sem causa, lutando para consertar um mundo que, finalmente, está perfeito, com sua população satisfeita e feliz. Mas, para ela, esse mesmo mundo está quebrado, tendo sido tomado por algo sem que houvesse consentimento, sem ser respeitado. Por mais ideal que pareça, a protagonista encontra furos nessa nova realidade e percebe que as pessoas perderam aquilo que as torna únicas e humanas – é como se estivessem em transe, alienadas de si; como se tivessem morrido e seu corpo houvesse sido ocupado por uma consciência robótica, que toma todas as decisões. A liberdade havia sido consumida por uma falsa coletividade, que não respeita a singularidade e as diferenças, mas sim as silencia para que todos convivam em plena harmonia. O que parecia justo era, na verdade, uma ditadura.
Em Pluribus, Carol luta não só pela sua autonomia e a dos outros, mas pela permanência da identidade, da individualidade e da fluidez da vida, que é permeada não só de alegrias, mas também de frustrações. Ela luta pelas diferenças, que não precisam ser silenciadas para coexistir, mas que podem se unir e se tolerar pelo amor ou pela ética. Ela luta pela memória da dor, que não deve ser apagada, mas sim lembrada e respeitada.
Pluribus ensina a escutar as singularidades; ensina que a autonomia e a liberdade são fundamentais para a abertura de novos caminhos e experiências, mesmo que não sejam perfeitos ou ideais; ensina a questionar a fantasia de que tudo está bem quando algo incomoda. Afinal, o que é estar bem?
A autonomia, apresentada aqui por meio da série Pluribus, é um assunto caro para a psicanálise, que tem compromisso ético-político com a singularidade de cada sujeito. Durante o trabalho da análise, é importante possibilitar ao sujeito o encontro com seus desejos e a viabilidade para sustentá-los, mesmo que isso signifique enfrentar aquilo que parece impossível ou imutável. O processo procura criar espaço para a tomada de decisões de forma autônoma, sem depender do outro ou se alienar para isso, ressaltando o valor da liberdade.
Muitas vezes, esperar pelo outro para saber o que se deve fazer, sem tomar responsabilidade sobre isso, pode parecer sedutor – principalmente quando se trata de alguém que traz uma sensação de segurança. Porém, será que vale à pena delegar e postergar a escolha dos seus próprios caminhos? Quanto custa a sua autonomia?









