O corpo que adoece na ausência de si
- Victória Gomes
- 22 de abr.
- 2 min de leitura
O que os adoecimentos contemporâneos podem nos dizer sobre a nossa relação com o corpo e o psiquismo?
Presentemente, vivemos uma época que exalta a produtividade e o “controle” físico e emocional. Somos compelidos a gerenciar nosso estresse, otimizar nosso sono e regular nossas emoções como quem ajusta um cronograma. Nesse enquadre, o corpo aparece apenas como uma ferramenta a ser adaptada, que deve acompanhar a produtividade exigida sem apresentar queixas. No entanto, o corpo se queixa e, quando não é escutado, adoece.
Mas o que acontece quando alguém adoece justamente por não poder conduzir a própria vida? Quais limites são impostos pelo adoecimento quando não se escuta a necessidade de parar?

Na psicanálise, o corpo é território, e o sintoma – corporal ou psíquico – é mensagem. Mais do que um fenômeno orgânico, o adoecimento pode ser lido como um endereçamento: algo que não pôde ser colocado em palavras inscreve-se no corpo.
Em meio a um sistema que cobra funcionalidade ininterrupta e não suporta falhas, naturalmente o corpo adoece, não só em suas capacidades fisiológicas, mas também como um ato de resistência involuntário. O corpo passa a dizer “não” quando a consciência está impedida de o fazer.
Fadiga crônica, dores “sem explicação” e distúrbios gastrointestinais ou imunológicos são exemplos de processos que surgem, muitas vezes, quando se está “bem” do ponto de vista do desempenho, mas distante de si do ponto de vista subjetivo.
Quando a autonomia do sujeito é sistematicamente inviabilizada – seja por relações familiares opressivas, por exigências profissionais desmedidas ou por uma cultura que não valida o sofrimento – o corpo pode tornar-se o último território de afirmação e delimitação dos próprios desejos ou do que é suportável, onde a dor finalmente pode aparecer, sem ser omitida.
Diante do impossível de ser dito, o inconsciente guarda a memória das sensações e repete no corpo, revivendo dores e tensões para que não mais sejam silenciadas, mas sim percebidas, escutadas e elaboradas – quase como uma súplica a algo que merece atenção e importância. O corpo é testemunha silenciosa do que a memória consciente precisa esquecer.
A clínica psicanalítica, nesse sentido, oferece um espaço onde o sofrimento pode, gradualmente, ser investigado e interpretado, e não apenas suportado ou medicado. Isso, obviamente, não funciona como uma promessa de cura rápida e genérica, mas sim como uma aposta de que, ao restituir a palavra ao sujeito, algo pode se movimentar em seu corpo e psiquismo. Não se trata de eliminar a dor já produzida pelos acontecimentos, mas sim de buscar retomar a condução da própria vida, ainda que ela seja marcada pela perda, pelo limite, pelo que não pôde ser diferente.
O corpo que adoece na ausência de si pode também ser o corpo que começa a retornar a si por meio da palavra, da escuta e da possibilidade de dizer o que antes só podia repetir.
“A vida se expande e se cura pela repetição”.
– Sándor Ferenczi









