Medicamentos como reguladores de produtividade na contemporaneidade
- Victória Gomes
- 22 de abr.
- 3 min de leitura
Uma discussão intermediada pelo filme A Substância
Que o filme A Substância (2024), de Coralie Fargeat, faz fortes críticas à indústria da beleza é evidente. Mas o que ele também pode nos dizer sobre o uso de outras substâncias, como medicamentos e drogas, nos dias de hoje e sua relação com a produtividade?

Elisabeth Sparkle, personagem principal do filme, é uma estrela de Hollywood que tem seus dias de estrelato contados por ser considerada “velha” e “acabada” para o que as pessoas queriam ver na TV. Mesmo com tantos privilégios sociais, o seu auge já havia passado para o meio artístico, e ela é facilmente descartada em seu trabalho quando surge a primeira oportunidade.
Magoada e influenciada pela indústria da beleza, entra em contato com a promessa de uma substância que revelaria uma versão mais jovem, mais bonita e mais perfeita de si mesma.
O que chama atenção, para além de como a substância afeta principalmente a aparência física de Elisabeth, trazendo uma nova versão dela, Sue, é como um de seus objetivos para ter feito isso foi o descarte que sofreu em seu trabalho. Seu principal ofício, que a tornou “quem ela é”, trouxe status, fama e dinheiro, um talento e um legado traçado por ela em sua carreira. Para Elisabeth, sua carreira e sua imagem eram sua principal identidade. E o que restou dela quando não era mais o que o público, influenciado pela mídia, queria ver? Nada.
Elisabeth injeta uma substância. Essa substância traz uma nova pessoa, que também é ela, mas em uma versão “melhorada”, prometendo ser: mais jovem, mais bonita e mais perfeita. Essa versão simboliza plenamente o que “ainda” é “aproveitável”, um modelo potente de corpo que suporta longas horas de trabalho e de lazer. Só tem um problema: não se pode fazer um uso abusivo da substância, deve-se respeitar um limite para que haja um “equilíbrio”, além de ter que estabilizar sua substituta todos os dias para que ela seja funcional.
Observando o cenário que se desenha a partir do filme, é possível traçar um paralelo com o cotidiano imposto pelo capitalismo e as suas exigências, que decretam o que deve ser tratado como funcional e aproveitável. Se uma pessoa não está suportando, se adequando ou se adaptando às normas, já tem sua postura lida como um sinal de ineficiência, fraqueza e doença, o que deve ser combatido com o uso de alguma substância medicamentosa para torná-la mais produtiva, mais perfeita, com corpo e mente mais “abertos” ao que é determinado.
Mas será que o problema é mesmo essa pessoa? E será que o caminho é realmente seguir um manual padrão, ditado para todos igualmente, sem adaptações feitas para diferentes histórias?
Somos bombardeados o tempo todo por um ritmo de vida acelerado e individualizante, em que cada um deve se responsabilizar por si, pelo seu próprio equilíbrio. Mas quem pede por isso e que corpo sente isso? Algo merece ser escutado e elaborado ou somente silenciado e amenizado por remédios, evitações e excessos, por exemplo?
O problema, obviamente, não são as substâncias, porque elas sempre estiveram presentes na história da humanidade – e de outros animais da natureza – em práticas curativas e medicinais, de lazer e em rituais. O que devemos questionar é a necessidade do uso disso a qualquer momento ou dificuldade para conseguir se estabilizar – será que essa alternativa é, de fato, saudável para cada corpo, psiquismo e estilo de vida?
No filme, o abuso da substância trouxe à protagonista mudanças irreversíveis, com efeitos colaterais drásticos. Elisabeth não era mais Elisabeth, muito menos Sue. Se perdeu no que era, agora, Elisasue. Seus desencontros consigo, agravados por um sistema excludente que só bonificava sua versão “perfeita”, geraram uma terceira versão sua, que escancarou toda a sua dor e o seu desespero fisicamente, antes escondidos e mascarados por uma beleza quase plástica. Elisasue era vista como monstro pelo outro, despertando nele incômodo extremo, aversão e horror, algo irônico para uma forma que, um dia, já havia sido endeusada. Sua busca incessante para se encaixar à norma só trouxe adoecimento.
Esses extremos acabam por demonstrar a inconsistência na busca pelo conceito de equilíbrio pregado na contemporaneidade, dado como um padrão único e quase impossível de ser acessado e alcançado.
Nesse entremeio, a questão que fica é: quais caminhos e escolhas cada um pode tomar para encontrar o seu próprio equilíbrio, sem guiá-lo pelas imposições culturais ou pelo desejo de aprovação do outro?
A resposta para essa pergunta não é fácil nem simples, mas é possível e variável para cada um. Há diversas maneiras de ter experiências saudáveis e respeitosas consigo mesmo, e essa é uma busca que só você pode fazer por si.









