Psicanálise e Política
- Victória Gomes
- 22 de abr.
- 2 min de leitura
Quando se pensa na psicanálise, é comum reduzi-la a uma prática clínica direcionada à escuta de queixas individuais, existindo no imaginário de parte das pessoas a falácia de que esse saber se isenta de tópicos sociais. Mas, como cita Vera Iaconelli em seu livro Manifesto Antimaternalista, “engana-se quem pensa que a psicanálise se resume ao espaço caricato de um consultório, uma poltrona e um divã, imagem reveladora do aburguesamento a que ficou associada”.
De fato, é inegável que a elitização existe nesse meio, mas é um aspecto que inclusive prejudica a atuação psicanalítica. Isso porque a análise de um sujeito só é possível a partir do entendimento da época e da cultura em que ele está inserido, ou seja, não basta apenas ouvi-lo, deve-se escutá-lo ativa e criticamente, atentando-se ao seu contexto e às particularidades de sua vida. Por isso, é inviável não considerar os atravessamentos sociais e como eles afetam cada psiquismo.

Para dar força a esse apontamento, o movimento psicanalítico demonstra, ao longo da sua história, diversos escritos e inquietações diante de adoecimentos em massa, como no contexto pós Primeira Guerra Mundial, em que o próprio Freud convocou psicanalistas a se posicionarem crítica e politicamente perante os crimes cometidos contra a humanidade e as suas consequências catastróficas. Nesse cenário, por exemplo, Freud foi responsável por pensar serviços públicos de escuta e cuidado para ampliar o acesso àqueles que não o tinham, reconhecendo a importância política e social da prática clínica.
Assim, quando um profissional escolhe a psicanálise como ponto de partida, é preciso estar disposto a se debruçar sobre as marcas presentes na história de vida de cada pessoa, entendendo os acontecimentos individuais, mas também as questões sociais que atravessam a sua existência. Por isso, é necessário compreender que o coletivo e o individual são igualmente indispensáveis para escutas efetivas em diferentes espaços, acolhendo pessoas diversas em suas alteridades, o que reitera a importância de uma escolha ética e política na clínica da psicanálise.









